sábado, 20 de abril de 2013

MINHA CASA MINHA VIDA: O OUTRO LADO DA DESOCUPAÇÃO


Dezenas de famílias de sem - teto ocupantes há nove meses de casas ociosas no Sítio Natureza agora estão sem saber para onde ir.

                                                         
Raymundo Serra*

Há nove meses morando em casas ocupadas no Conjunto residencial Sitio Natureza do Programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal, cerca de setenta famílias estão sem saber para onde ir. Os ocupantes receberam da Justiça Federal ordem de despejo e terão que deixar as casas num prazo de setenta e duas horas. Além de Sitio Natureza os ocupantes de outros  conjuntos residenciais do Programa Minha Casa Minha Vida, localizados em são José de Ribamar também foram notificados sendo que estes últimos em sua maioria já deixaram os imoveis.

Segundo os ocupantes, o que difere o movimento de ocupação do Sítio Natureza dos demais movimentos de ocupação é o fato de que quando as famílias ocuparam as casas estas já haviam sido entregues pela Caixa aos mutuários. Passados trinta dias da entrega muitas casas estavam ociosas, servindo apenas como     local de visita aos fins de semana para os mutuários,  em outros casos os imoveis estavam completamente abandonados.  As casas que já haviam sido entregues e estavam há mais de trinta dias desocupadas ou mesmo abandonadas pelos contemplados foram ocupadas pelas famílias.  Um outro ponto levantado pelos ocupantes, que segundo eles difere a ocupação do Sitio Natureza das demais ocupações que ocorreram mais recentemente, é o fato de que no Sitio Natureza as famílias já estão residindo há nove meses, o que significa dizer que elas estabeleceram moradia e organizaram sua vida social  no local. Os ocupantes alegam que  entre eles há crianças, idosos e portadores de necessidades especiais. As  crianças inclusive matriculadas em escolas próximas ao local onde residem. Diante disso, dentre os prejuízos de uma desocupação brusca sem levar em consideração as condições sociais dos ocupantes, está a perda do ano letivo de dezenas de crianças matriculadas em escolas próximas.

As famílias dos ocupantes são famílias de baixa renda, a desocupação irá colocar também essas famílias em situação de vulnerabilidade social, uma vez que elas em sua maioria absoluta não teriam condições de arcar com os custos de um aluguel, muito menos de adquirir uma moradia própria. A ordem da desocupação do Sítio Natureza saiu de uma audiência realizada na tarde da ultima quinta - feira (18/04)  na sede da Justiça Federal em São Luís. Após ficarem sabendo do  resultado da audiência  o clima era de tenção e desespero entre as famílias dos ocupantes. O prazo dado ela justiça federal para a  retirada dos é de  apenas  setenta e duas horas. 

Esperança

Os ocupantes já haviam recebido antes duas notificações de reintegração de posse, nos dois casos anteriores conseguiram na justiça a suspensão da liminar e permaneceram nos imoveis. nas notificações anteriores os prazos dados pela Justiça Federal eram de 15 dias. Durante esses nove meses que permaneceram nos imoveis a luta dos ocupantes era para que a Caixa se sensibilizasse e chegasse a uma negociação, já que estes estevam dispostos a pagar o mesmo valor das prestações que os contemplados que receberam as casas e não não ocuparam no prazo estabelecido iriam pagar à Caixa. A maioria dos ocupantes são também inscritos no Programa Minha Casa Minha Vida. 

Denúncias 

Os ocupantes denunciam a venda de casas e as demais fraudes do programa, visto que muitas casas foram entregues a pessoas com renda superior ao perfil exigido pelo Programa. Os ocupantes juntaram fotos e recortes de anúncios que comprovariam a venda de casas, além disso fizeram fotos e filmagens de casas de médio e alto padrão o que comprovaria a entrega de casas a pessoas com alto poder aquisitivo. As denuncias foram levadas ao juiz federal responsável pelo caso, o mesmo que ordenou a desocupação. o juíz teria afirmado aos denunciantes que essas investigações  não seriam de maior importância no momento, o que interessaria agora seria a retirada dos ocupantes.


*Raymundo Serra é aluno do Curso de Ciências Sociais da UFMA  

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Vale pode pagar multa milionária por violação às normas do meio ambiente


Por conta de violações às normas de meio ambiente e segurança do trabalho, o Ministério Público do Trabalho no Maranhão (MPT-MA) ingressou com uma Ação Civil Pública (ACP) contra a mineradora Vale, na 7ª Vara do Trabalho de São Luís. A indenização solicitada por dano moral coletivo chega a 37,8 milhões de reais – valor recorde na história da justiça trabalhista maranhense.
O MPT-MA investiga a Vale desde 2007 e já instaurou seis inquéritos civis para apurar várias denúncias de irregularidades e acidentes de trabalho, que resultaram na morte de cinco funcionários (Nilton Freitas Nascimento, Lusivan Pires Ribeiro, Clemente Rodrigues Neto, Ronilson da Silva e Hécules Nogueira da Cruz Silva).
Na Ação, protocolada no final do ano passado, os procuradores Anya Gadelha, Maurel Selares e Christiane Nogueira recomendaram o cumprimento de 38 obrigações e sugeriram a aplicação de multa de 200 mil reais por medida desobedecida.
“A empresa vem, ao longo dos anos em que está instalada no Maranhão, desrespeitando normas elementares de segurança e saúde no trabalho, construindo cenários macabros de acidentes de trabalho fatais que chocaram a sociedade maranhense”, afirma Anya.
Segundo a procuradora, o valor elevado da indenização busca reparar toda a sociedade, punir a empresa e prevenir a prática de novas infrações. “As irregularidades apontadas nos vários autos de infração lavrados em desfavor da Ré são inadmissíveis para uma empresa do seu porte. Afinal, trata-se da segunda mineradora do mundo, que atua em 37 países e alcançou o lucro recorde em 2011 de R$ 37,814 bilhões”, lembrou ela.
Um dos piores episódios protagonizados pela Vale ocorreu em abril de 2010, quando sete trabalhadores que prestavam serviço no Píer III do terminal portuário da Ponta da Madeira, em São Luís, foram atingidos por uma calha do bandejamento do transportador de minério. Dois deles morreram e os outros cinco sofreram lesões.
Os 37,8 milhões de reais de indenização deverão ser revertidos em projetos sociais e/ou ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). “A reparação por dano moral coletivo adquire uma função social e política, que leva o julgador a fixá-la em montante que signifique uma punição exemplar ao infrator”, pontuou Anya.
Acidentes de trabalho
De acordo com o Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho do Ministério da Previdência Social, o Maranhão registrou um aumento no número de casos de acidentes laborais nos últimos anos. Em 2011 foram 6.252 acidentes de trabalho, contra 6.136 em 2010 e 5.957 em 2009.
Texto reproduzido  do Jornal Vias de Fato

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O DONO DA UFMA


Texto reproduzido de http://www.viasdefato.jor.br/index2/ 
Tempos sombrios marcam a universidade brasileira, não obstante toda a propaganda governamental (e das próprias instituições) falando maciçamente em expansão, melhoria de infraestrutura, inclusão, participação e comprometimento com a sociedade. Na UFMA, o reitor Natalino Salgado segue a escalada autoritária que foi a marca real de sua administração desde o primeiro mandato. Pouco afeito à contradição e ao debate, é um homem do espetáculo, preocupado acima de tudo com a projeção da imagem, para quem os estatutos da universidade estão sempre abaixo de sua vontade. O recente caso da exoneração do prof. Ayala Gurgel deve ser analisado num quadro maior de desmandos e caprichos de um reitor que reedita em várias questões as posições de um símbolo do autoritarismo na UFMA, José Maria Cabral Marques, a quem nos referíamos no início da década de 80 como o “Reitô”.
Vindo de uma gestão de dez anos à frente do Hospital Universitário, um tempo total ilegal se observados os estatutos, iniciou seu reitorado convocando a polícia militar para garantir a votação da adesão ao REUNI pelo Conselho Universitário (CONSUN). A partir daí, o que se viu foi um processo de esvaziamento dos colegiados superiores (mesmo que lhe sejam sempre dóceis), a rotinização de decisões tomadas centralizadamente pela Pró-Reitoria de Ensino, um plano de reestruturação física levado a efeito de forma caótica, sem nenhuma preocupação em ouvir a comunidade universitária, contando hoje com uma série de esqueletos de prédios espalhados pelo campus (ops!, pela cidade universitária, como quer o Magnífico), uma expansão irresponsável de cursos e número de alunos, cujos problemas já se acumulam a olhos vistos e começam a vazar por todos os lados, aqui e nas unidades do interior (ops!, do continente). Emoldurando tudo, uma obsessão com o que chama de “imagem da universidade”, mas confunde cada vez mais com a sua imagem e da sua administração.
Neste período, para que ocorressem as eleições regulares para chefes de departamento e coordenadores de cursos foi preciso a APRUMA solicitar a intervenção do Ministério Público. Em contrapartida, a consulta eleitoral para reitor foi largamente manipulada, com exíguo tempo de campanha, inexistência de debates e utilização descarada da máquina universitária. Ao final, registrou-se o menor comparecimento percentual de todas as consultas. Uma abstenção gigante, solenemente ignorada pela ASCOM, cada vez mais transformada em assessoria de comunicação do reitor e não da universidade, que alardeou uma vitória esmagadora.
Seguindo o script do “Reitô”, protagonizou uma intervenção na direção do Colégio Universitário em plena greve de professores no ano passado, desencadeando-se, com a nova diretoria, perseguição ao prof. Bartolomeu Mendonça, da área de sociologia e integrante da atual direção da APRUMA, cuja disciplina foi simplesmente cancelada da grade do 3º ano. Na ocasião, em cena patética registrada no you tube, falou contra os “professores que reclamam, que não vestem a camisa da instituição” (leia-se da sua administração). Mais recentemente encaminhou a adesão do Hospital Universitário à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares sem discussão e sem consulta ao Conselho Universitário. O mesmo se deu com a assinatura da demissão do professor Gurgel, pois a reunião do CONSUN que confirmou a decisão foi efetuada por força judicial. Uma decisão que, de resto, já havia sido anunciada pelo próprio “Reitô” no início de tudo, antes de qualquer processo, ao convocar uma entrevista coletiva com a presença do núcleo da administração superior da universidade, todos no auditório central em autêntico espetáculo midiático, para dizer que ou o professor comprovava suas “denúncias” (uma afirmação feita numa conversa no twitter) ou seria exonerado.
 A comissão de sindicância convocada não teve nenhuma dúvida em atender à vontade do Magnífico “Reitô”, que prontamente deu por finalizada a questão e assinou a demissão, em contraste flagrante com o estipulado nos estatutos e nos ritos a serem seguidos. Não bastou a defesa mostrar como o processo estava eivado de erros, relativo a prazos, encaminhamentos, forma de enquadramento, contradições etc. Instado judicialmente a convocar o CONSUN, o que deveria ter feito antes de finalizar o caso se tivesse a mínima preocupação com a observância dos estatutos, este confirmou vergonhosamente, mas sem surpresas, a decisão sumária de exoneração. Os conselheiros não parecem interessados em outra coisa a não ser não contrariar o “Reitô”, pois ao invés de perceberem no atropelamento do processo a sanha vingativa encapuçada de defesa da instituição e a afirmação de um modelo de direção que tem ojeriza por decisões colegiadas, justamente o contrário do que deveria ser numa universidade, preferiram entregar na bandeja a cabeça não apenas do prof. Ayala Gurgel, mas de qualquer um que, por algum motivo, venha a ferir a “imagem da UFMA”, seja lá o que isso signifique, ficando a critério daquele que se considera o seu dono. E ainda assinaram embaixo que o processo pode seguir independente da observância das regras para sua instrução.
Deve-se ressaltar que tudo foi feito com a anuência velada, mas não menos vergonhosa, de todos os que se abstiveram na votação. O único voto contrário à decisão foi o da representante da APRUMA, justamente o único espaço da universidade que Natalino Salgado tentou controlar e não foi bem sucedido. Se no Conselho Universitário têm assento pró-reitores e outros cargos de nomeação pelo reitor, lá também estão os diretores dos centros, chefes de departamento, coordenadores de cursos, todos eleitos, na plenitude de suas prerrogativas, mas abaixam a cabeça e acatam tudo, sempre. É o servilismo como vocação.
Não venho a público apenas prestar solidariedade ao prof. Ayala Gurgel, a quem não posso dizer que conheça, muito menos avalizar seus métodos e comportamentos, mas para insistir no ponto crucial que é o viés autoritário que marcou todo o posicionamento da direção da universidade no caso, o encaminhamento praticamente à margem da legislação, a qual se agregam agora observações críticas ao professor colocadas no site da instituição, levantando problemas que não têm a ver com a questão em foco. A nota emitida pela administração superior chega ao cinismo de dizer que a decisão foi levada ao CONSUN “por respeito à comunidade acadêmica”, invertendo completamente os fatos e tratando a todos como idiotas. Isto é comum aos ditadores de vários matizes, os métodos são sempre os piores possíveis.
Num quadro de fragilidade institucional e desmandos rotineiros, perseguições tendem a se tornar correntes. Recebemos estarrecidos um comunicado da APRUMA dando conta de que a progressão funcional da profa. Marizélia Ribeiro, do departamento de Medicina III, encontrava-se parada há um ano no respectivo Centro, apesar de toda a documentação comprobatória estar em ordem. Foi necessário, mais uma vez, mandado judicial para que o processo chegasse ao final. Frise-se: mandado judicial para uma simples progressão funcional! Que outra explicação encontrar a não ser a conhecida atuação da professora, secretária geral da APRUMA, na luta contra os desmandos da atual administração? É quase inacreditável e chega mesmo a ser ridículo que estejamos nesse ponto.
Ao “Reitô” Natalino Salgado não interessa uma discussão a sério sobre a reforma dos estatutos no sentido de uma efetiva democratização que garanta maior espaço para a comunidade universitária decidir os destinos da UFMA. Nada mais longe do seu ideal concentrador e personalista. O próximo passo, inclusive, é jogar as fichas no fim das unidades departamentais, na verdade com a finalidade pura e simples de concentrar decisões sobre ensino e pesquisa, destinação de carga horária etc. nas Pró-Reitorias ou alguma instância superior, contanto que seja quebrada a parca autonomia ainda exercida no nível dos departamentos.
Ao invés de encontrar formas de integrar as atividades e os departamentos, que agem como ilhas quase incomunicáveis entre si, para o que concorre a inércia dos Centros, incapazes de exercer qualquer função dinâmica, muitos parecem já concordar em comodamente entregar tudo para as decisões vindas de cima, sem atentar para os riscos a uma frágil aglutinação que ainda se exerce no âmbito dos departamentos. Seremos jogados numa pulverização similar à que ocorre nas universidades privadas, onde o interesse final limita-se à contabilidade das horas de aula ministradas, numa submissão sem freios à lógica quantitativa da mercadoria.
Torna-se cada vez mais imperiosa a mobilização pela reforma dos estatutos numa perspectiva contrária a essa avalanche de uniformização e centralização de decisões, cujos frutos maiores sempre são o autoritarismo e a paralisia da crítica. A UFMA passa por um momento importante de renovação de seus quadros de docentes e funcionários, além da expansão do número de alunos. É preciso que se envolvam nas questões postas e os antigos não se furtem ao compromisso de construção de um espaço mais dinâmico e integrado, seja em sua face interna, acadêmica, seja nas relações efetivas com a sociedade, o que só conseguiremos quebrando os velhos modelos de gestão da coisa pública, mergulhados nos conhecidos festivais de arbitrariedade, compadrio e patrimonialismo, apesar de todo o invólucro da propaganda modernizadora. É recuperar, pelo menos, a dignidade de afirmar ao sr. Natalino Salgado que a UFMA não tem dono. Algo que o CONSUN perdeu.

*Flavio Reis é professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA


Artigo acadêmico NO FIO DA NAVALHA: MODERNIZAÇÃO E RESISTÊNCIA DA PROFISSÃO DE BARBEIROS

PDF https ://drive.google.com/file/d/1GpEtU3BetVuF8FQCY9ZbEycJZvMkaxOF/view?usp=drivesdk NO FIO DA NAVALHA: MODERNIZAÇÃO E RESISTÊNCIA DA ...